quarta-feira, novembro 22, 2017

Déficit da Previdência: Existe ou Não?






Por Maurício Schwartsman (*).

O obscurantismo antidéficit chegou ao Senado. Quem vai pará-lo?.




Desde que se propôs a reforma da Previdência, o tema do déficit previdenciário passou a despertar paixões raras às questões contábeis. A depender do interlocutor, é possível ouvir que o déficit é um fato incontestável ou uma conspiração para aprovar a reforma.

Uma das definições para o déficit é usado pelo Tesouro e TCU e amplamente aceita fora do Brasil. A definição que nega o déficit é baseada principalmente no trabalho de um sindicato interessado na reforma.

A divergência se deve às definições dadas ao resultado previdenciário. A mais aceita ao redor do mundo, e usada pelo Tesouro Nacional e pelo Tribunal de Contas da União, é a diferença entre receitas e despesas da Previdência. Conforme esta acepção mais comum, o TCU calcula que houve déficit de R$ 226 bilhões. Este resultado, no entanto, não agrada ao senador Hélio José, relator da CPI da Previdência.

Outra definição, utilizada apenas no debate público brasileiro, tem sido divulgada principalmente pela ANFIP, a Associação Nacional de Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil. A categoria tem salário inicial de 19 mil reais e já negociou o aumentos dos próximos anos. Na sua prova de concurso, não há temas específicos de economia ou sustentabilidade de políticas públicas necessários a analisar o resultado da previdência.

É na definição da ANFIP que o relatório de Hélio José se apoia, em detrimento da que se encontra nos melhores periódicos ou jornais específicos da área. Antes de tratar sobre a definição em si, é importante fazer esta lembrança.
Na prática, ANFIP e Hélio José defendem que a saúde deve financiar a previdência – e que os gastos com previdência devem ter prioridade sobre todos os outros no Orçamento Federal

A associação alega que é necessário analisar a receita da Seguridade Social como um todo. Dentro da seguridade, estão as despesas com saúde e assistência social. Impostos que tenham como destinação a Seguridade, segundo a ANFIP, devem constar ao lado das contribuições diretas ao regime previdenciário.

Um problema grave com esta narrativa é que, na seguridade social como um todo, há déficit próximo a 260 bilhões de reais. Há mais gastos com seguridade do que receitas destinadas a ela. Qualquer ausência de déficits implica aumentar as receitas, incluindo as da seguridade social, sem aumentar as despesas, pois curiosamente não se inclui a seguridade na hora de subtrair.

O conceito amplamente aceito – da diferença entre contribuições para e despesas da previdência social – mede o que é relevante ao debate sobre reforma da previdência, a sustentabilidade do sistema.

Há outras inovações um tanto estranhas no cálculo da ANFIP.
Os negacionistas do déficit da previdência tem escolhas estranhas e geralmente pouco relevantes para o debate sobre Reforma da Previdência

Embora seja democraticamente legítimo que se destinem receitas a fins determinados – como seguridade social -, a concessão abstrata de espaços no orçamento pode levar à incapacidade prática de gerir o Estado. A vinculação das receitas, em última análise, pode impedir a administração pública.

Por isso, existem medidas como a DRU (Desvinculação das Receitas da União), que separa uma parte do orçamento à qual não incidirão as vinculação. Ou seja, as DRUs dizem que parte da verba nominalmente destinada à seguridade social não faz parte da seguridade social na prática. O cálculo da ANFIP considera a presença das DRUs ao excluir o valor desvinculado.

Mesmo ignorando essa adição estranha, grita a exclusão da previdência do funcionalismo público na conta negacionista. É como se o Regime Próprio dos Servidores Públicos não tivesse qualquer pertinência à Previdência.

Ao excluir servidores das despesas, a ANFIP exclui a si mesma, dado que se trata de um órgão representante dos servidores federais. Ou seja, exclui do debate sobre previdência um regime que muito contribui para o déficit e garante presença entre os 1% mais ricos do país a praticamente todos os associados à ANFIP.

Em 2016, a ANFIP encontrou déficit mesmo após toda a tortura estatística. O senador Hélio José omitiu o ano de 2016 na tabela 5 do seu relatório, publicado em outubro de 2017.

Feitas todas essas alterações, obtêm-se os tais “superávits”, como registrado na tabela 5 do relatório. O leitor atento também notará que o último ano da tabela é 2015. A razão para tanto é que, apesar de seus melhores esforços, a ANFIP encontrou um déficit em 2016 de R$ 57 bilhões.



Em seções anteriores, já havia sido demonstrado que a “convicção” do senador Hélio José não era respaldada pelo Tesouro ou pelo TCU, órgãos responsáveis pela aferição dos déficits. É muito importante notar que eles não são referendados sequer pela ANFIP, um grupo manifestamente contrário à reforma da Previdência.
O déficit futuro

O senador também ataca as projeções atuariais do Regime Geral de Previdência Social em seu relatório. Em particular, critica as projeções para o crescimento econômico nas próximas décadas, que são inferiores à média observada entre 1996 e 2016 e, portanto, subestimariam a receita e superestimariam o déficit como proporção do PIB.

Um mesmo motivo reforça a hipótese de que o país não crescerá tanto quanto no passado e o receio com a previdência. O crescimento populacional está desacelerando e a população está envelhecendo rapidamente.

À medida que o processo avança, menos gente em idade ativa haverá para trabalhar e sustentar os aposentados; o crescimento do PIB e das receitas provavelmente não será tão bom quanto supusemos. Trata-se não de uma projeção econômica ou atuarial, mas demográfica. Não é necessário concordar em qualquer debate econômico sobre o assunto para reconhecê-lo.





Um segundo problema com o raciocínio é que o crescimento depende do que acontece com as contas públicas. À medida que a Previdência se deteriora, o governo terá que cobrir o déficit de alguma forma. Um modo é aumentar a carga tributária, o que tem efeitos negativos sobre o crescimento. Outro é contrair dívida, que provoca um aumento da taxa de juros, também inibindo o crescimento. E mesmo a dívida, afinal, deve ser paga com impostos futuramente.

Em um caso extremo, em que não se possa mais recorrer a impostos ou dívida, o governo terá que se financiar com inflação ou um calote, também conhecidos por prejudicar o crescimento.

Portanto, há e haverá déficit na Previdência. Hoje, o sistema precisa de mais recursos do que arrecada. É muito difícil argumentar por sua sustentabilidade e a melhor preocupação social dificilmente leva ao apoio de contas estranhas por partes interessadas.

Em que pese a convicção do senador, cabe perguntar por que ele escolheu confundir, ao invés de esclarecer.



(*)Maurício Schwartsman é diretor da Schwartsman & Associados Consultoria Econômica Ltda

terça-feira, novembro 21, 2017

A infiltração comunista em Hollywood



Por Johnathan Gray(*).

Imagem Ilustrativa da Matéria de Felipe de Moura Brasil Celebridades Hipócritas de Hollywood


Nos últimos anos, escritores, atores e produtores pró-comunismo na “lista negra de Hollywood” nas décadas de 1940 e 1950 tiveram uma exposição positiva nos meios de comunicação. A lista negra em si é muitas vezes vista como um exemplo de censura governamental, decorrente das pesadas táticas do agora extinto “Comitê de Atividades Antiamericanas”, cujo objetivo era proibir e reprimir os movimentos comunistas nos Estados Unidos.

Mas a situação é mais complicada do que a atual perspectiva que se tem sobre o assunto. A história mostra que muitos na lista negra foram colocados lá por uma boa razão, já que muitos admitiram trabalhar como agentes soviéticos e moldaram narrativas pró-comunistas através de seus filmes.

Uma análise mais aprofundada revela que se tratava de um círculo de indivíduos, alguns com diretrizes diretas da Rússia, que apoiavam a derrubada violenta do governo dos Estados Unidos. A criação da lista negra de Hollywood foi uma resposta a este círculo que transformou a indústria do entretenimento americana em uma ferramenta de propaganda de um regime assassino e totalitário, enquanto atacava os valores e o modo de vida do povo americano.

Antes da Segunda Guerra Mundial, muitos membros do Partido Comunista da Alemanha, o segundo maior grupo comunista fora da Rússia, deixaram a Alemanha rumo a outras partes do mundo.

Muitas dessas pessoas foram rejeitadas e rotuladas como indesejáveis por outras nações desenvolvidas, como o Reino Unido, e, por isso, emigraram para os Estados Unidos. Ao chegar, muitos escritores e produtores de filmes se uniram a grupos do Partido Comunista Americano.

Esta onda de imigração serviu de apoio à infiltração soviética nas artes e na cultura, e à penetração nas instituições políticas em meados da década de 1930. Com este sistema, os comunistas planejavam fazer o que os ditadores brutais Vladimir Lenin e Josef Stalin conseguiram na Rússia soviética: transformar a indústria do entretenimento em uma ferramenta para disseminar a ideologia e a propaganda comunistas.

Subversão cultural
Segundo Michael Kazin, professor de história na Universidade de Georgetown, este grande sistema de cooptação começou em Hollywood na década de 1930 com esquerdistas influentes no setor cinematográfico, como Yip Harburg, compositor de “O Mágico de Oz” e da música “E Rússia é seu nome”, usada no filme “A música da Rússia”. Harburg foi um dos principais artistas pró-soviéticos da indústria cinematográfica de Hollywood.

Harburg e outros pró-soviéticos exerceram uma influência psicológica no público amante do cinema. Eles moldavam as narrativas que o público americano, e o mundo em geral, absorviam do cinema.

Muitos desses escritores, produtores e diretores de Hollywood, alguns dos quais eram membros fanáticos do Partido Comunista, fizeram filmes contendo ideias e ideologia pró-comunistas e pró-socialistas. De alguma forma, uma grande parte dos filmes dessa época foram projetos artísticos que funcionavam como veículos para as sutis técnicas de doutrinação comunista. Veículos que tentavam substituir os princípios americanos de liberdade e direitos individuais pela ideologia do ateísmo e da luta de classes.

Entre eles estava John Garfield, um ator de renome cuja conexão com 17 organizações comunistas foi revelada em uma edição de junho de 1950 dos Red Channels (publicação dedicada a expor o comunismo na indústria do entretenimento).

O entusiasmo no uso de filmes para espalhar propaganda vinha do topo do regime soviético. Kenneth L. Billingsley escreveu em seu livro “Os filmes perdidos de Hollywood”, que Stalin era um verdadeiro cinéfilo, tremendamente entusiasmado com a promessa do cinema de exaltar ideais comunistas.

O uso do cinema como ferramenta de propaganda remonta aos primeiros anos do movimento comunista.

O ditador bolchevique Lenin foi o primeiro líder comunista a reconhecer a importância de materializar a manipulação do pensamento, em escala mundial, através dos filmes.

Dizem que, em 1919, quando tanto o cinema como o Comitern (a Internacional Comunista) estavam em seus primeiros estágios, Lenin confiou a seu secretário de educação, Anatoly Lunacharsky: “você sempre deve considerar que, de todas as artes, o cinema é para nós a mais importante”.

“Use-o contra eles”
Billingsley observa que o plano do Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA da sigla em inglês) ficou claro para pessoas como o agente e ativista comunista Willi Münzenberg, ex-membro do Partido Comunista da Alemanha. Após exilar-se nos Estados Unidos, ele entrou rapidamente para o establishment de Hollywood como propagandista e ativista pró-comunista e pró-soviético.

Münzenberg escreveu sobre a indústria cinematográfica em um artigo de 1925 para o jornal do CPUSA, o Daily Worker (Diário do Trabalhador), que “uma das tarefas mais prementes que enfrenta o partido comunista no campo da propaganda é a conquista de uma unidade, até agora monopólio da classe dominante”.

E acrescentou: “Devemos lutar para tomá-la e usá-la contra eles”.

Münzenberg acreditava que os anos 30 eram o momento perfeito para que os comunistas americanos e seus supervisores atacassem. A Grande Depressão estava em pleno andamento. Aproveitando o fato de que muitos procuravam distrações e entretenimento, Münzenberg viu a chance de doutrinar contra o capitalismo as pessoas que iam ao cinema.

Billingsley escreveu em seu livro de 1998, “Partido de Hollywood: Como o Partido Comunista seduziu a indústria cinematográfica americana nas décadas de 1930 e 1940”, que em 1935, V. J. Jerome, secretário da cultura do CPUSA, havia estabelecido uma filial oficial do partido em Hollywood. Esta filial era uma unidade secreta, fora da vista do público.

Com esta unidade secreta, o CPUSA podia recrutar clandestinamente novos membros para o partido, infiltrar-se nas associações e sindicatos do cinema e arrecadar fundos para causas pró-soviéticas.

Entre esses subversivos do partido comunista em Hollywood, havia pessoas como o renomado escritor Walter Bernstein, que confessou em sua autobiografia de 1996 que “nós tínhamos uma aritmética sagaz; encontrávamos frentes e fazíamos com que dois se tornasse um”. Em outras palavras, através de frentes populares, os não-comunistas avançavam com os planos comunistas, e isso foi feito de maneira “astuta”, sem que os companheiros soubessem que estavam sendo usados.

Naturalmente, as autoridades começaram a desconfiar cada vez mais dessas atividades comunistas. O Congresso respondeu formando o Comitê de Atividades Antiamericanas em 1938.

O repórter do jornal Human Events, Allan H. Ryskind, declarou que o Comitê “descobriu mais de 200 membros do partido em Hollywood”, embora Ryskind diga que seu pai, um roteirista de Hollywood na época, acredite que o número real estava mais próximo de 300.

Ryskind disse que, apesar das investigações do comitê, em meados dos anos 40 os comunistas nos Estados Unidos haviam se infiltrado completamente em Hollywood, de cima a baixo, embora a maioria deles estivesse bem escondida, alinhada com a doutrina do partido comunista de ocultar seus objetivos, e nunca reconheceriam publicamente sua filiação ao partido.

Apoio a governos genocidas
Em seu livro “Traidores de Hollywood: Lista negra dos roteiristas – Agentes de Stalin, aliados de Hitler”, Ryskind escreve: “Nada do que o partido comunista fez na América foi feito sem a direção do Kremlin. Nada”.

Aqueles na lista negra de Hollywood não eram antifascistas, mas mudaram suas lealdades junto com as mudanças nas políticas soviéticas. Incluídas entre suas atividades, Ryskind observa o curioso flerte que muitos membros do partido comunista tinham com o Partido Socialista (nazista) dos Trabalhadores, de Adolf Hitler.

“Quando Hitler inicialmente ameaçou a Rússia, os membros do partido em Hollywood, sob as ordens de Moscou através da sede do partido em Nova York, se mostravam apaixonados anti-nazistas”, escreve Ryskind. “Quando Hitler apontou as armas contra o Ocidente, apoiado por seu pacto com Stalin em 1939, eles dedicaram suas vidas a dificultar a sobrevivência das nações anti-nazistas”.

Somente depois que Hitler surpreendeu Stalin com a invasão nazista da União Soviética em 1941, os comunistas de Hollywood se voltaram novamente contra Hitler.

Ryskind escreveu: “Eles não eram honrados antifascistas ou patriotas americanos, como argumentam seus defensores, mas aparatos leais aos soviéticos, uma quinta coluna trabalhando para Stalin”.

Esta mesma glorificação de ditadores e assassinos em massa continua hoje em Hollywood. Ryskind observa que Hollywood inclusive idealizou figuras comunistas, como Che Guevara e Fidel Castro. Che executou pessoalmente 180 pessoas e ordenou a morte de milhares de cubanos, incluindo mulheres e crianças.

Arthur Eckstein, historiador americano e distinto professor de história que o establishment de Hollywood nunca perdeu a paixão pelo partido comunista, tanto no sentido político como cultural.

Ele relembra a realização de uma cerimônia em 27 de outubro de 1997 para comemorar o 50º aniversário das audiências originais do Comitê de Atividades Antiamericanas. A celebração foi patrocinada por várias associações e organizações produtoras de filmes, incluindo a Associação de Atores e o Sindicato dos Escritores da América.

Muitos participantes do evento glorificaram aqueles que o comitê havia identificado como os “Dez de Hollywood”, chamados por alguns como os “Dez hostis”. O evento retratou esses homens como “mártires” e “não conformistas” ante a tirania e o autoritarismo.

Eles inclusive fizeram com que grandes estrelas recriassem partes selecionadas das audiências do comitê que se ajustavam à narrativa revisionista do establishment de Hollywood. Houve uma brincadeira em que Billy Crystal atuou como Larry Parks, um ator que, em 1951, admitiu ser membro do partido comunista, o que arruinou sua carreira.

John Lithgow e Kevin Spacey, entre outros atores, contribuíram igualmente com suas atuações para o evento. A cerimônia culminou com a chegada de alguns membros dos Dez, que foram recebidos com aplausos efusivos.

O romance de Hollywood com o comunismo, uma ideologia que tem produzido fome, guerras e genocídios em todo o mundo e que custou a vida de mais de 100 milhões de pessoas, continua até hoje.

Lenin parece ser o próximo a ganhar uma renovação em sua imagem por parte de Hollywood. O ator Leonardo DiCaprio está em negociações com a indústria cinematográfica russa pelo papel do ditador que o romancista e historiador russo Aleksandr Solzhenitsyn estima ter matado entre 60 e 66 milhões de pessoas.

Em uma crítica dos “Traidores de Hollywood” de Ryskind, Allan C. Brownfield escreveu:

“Longe do que se pensa sobre o papel do Congresso, é difícil entender como escritores comunistas que trabalharam tanto para outra nação e contra os interesses de seu próprio país, se tornaram heróis para muitos liberais. Como podem respeitar homens e mulheres que disseram que Hitler era maligno em um dia e que o aceitaram no dia seguinte, não por convicção genuína, mas por seu hábito de seguir a liderança de Stalin, assim como fizeram com todas as outras coisas? ”



(*)Johnathan Gray é escritor, produtor de filmes e veterano do exército. O presente artigo foi escrito sob um pseudônimo, uma vez que expressar opiniões anticomunistas pode prejudicar sua carreira em Hollywood.


Fonte: midiasemmascara.org

segunda-feira, novembro 20, 2017

O mito da dívida histórica entre brancos e negros





A Imagem-Banner causou polêmica para a jornalista Glória Maria, veja no final do artigo.

por Felipe Lungov(*).

Não quero aqui contestar o fato de que os colonos europeus tenham usado trabalho escravo africano durante séculos no Brasil. Negros eram capturados de suas tribos na África, cruzavam o Oceano Atlântico em condições precárias, eram vendidos e forçados a trabalhar para seus senhores brancos por gerações até o fim do Império.

As consequências morais desse triste capítulo da história podem ser analisadas por duas óticas diferentes. A primeira é a adotada pela esquerda em geral e pelo movimento ativista negro em particular, que acredita que ações e responsabilidades são atribuídas a grupos de pessoas com características comuns. Por essa ótica, o fato de brancos terem escravizado negros criou uma dívida moral e histórica entre esses dois grupos, que deve ser paga por quem hoje é branco para quem hoje é negro.

Essa análise fundamentaria as discriminações (sob o eufemismo de ações afirmativas) que vemos hoje, particularmente a reserva de vagas para negros em universidades e concursos públicos, sob pretexto de acerto dessa dívida histórica.

A segunda ótica com que podemos ver a questão é a ótica libertária. Por ela, direitos, obrigações, ações e responsabilidades são atribuídas a cada pessoa individualmente — não a grupos de pessoas. Ninguém, em hipótese alguma, é chamado para reparar um mal causado por outra pessoa, mesmo que ambos compartilhem a mesma cor da pele, sejam da mesma família, sejam amigos, ou torçam para o mesmo time. Jamais.(1)

Olhando por esse prisma, não haveria dívida histórica moral dos brancos de hoje para os negros de hoje, exatamente porque esses brancos não são obrigados a pagar por injustiças cometidas por outros brancos; e mesmo que fossem, não seria para os negros de hoje, que também são outros que não aqueles que foram vítimas da escravidão.

Ativistas do movimento negro, quando confrontados com essa argumentação, trocam o discurso moral pelo material. Segundo eles, o trabalho escravo negro beneficiou materialmente os brancos, e essa riqueza permitiu que os descendentes dos senhores de escravos estejam injustamente em melhor situação financeira do que os descendentes dos escravos. Aqui, haveria novamente uma dívida histórica a saldar.

O problema desse argumento é que ele repousa sobre uma visão curiosamente estreita da história. Eu mesmo tive a oportunidade de visitar o Zimbábue, na África, e andei em meio às ruínas do Reino do Zimbábue dos séculos 13 a 15. Visitei a câmara onde eram mantidos os escravos, o local onde eram mantidas todas as mulheres do rei, e as fortificações que defendiam o rei de invasores externos.

Também estive na Etiópia, em meio a ruínas e belíssimas igrejas onde outrora fora o Império Etíope que durou impressionantes 800 anos até o final do século 20. Como em quase todo o resto da África, o império escravizou, por milhares de anos, outros povos que conquistava.

Entre os europeus, por milênios pessoas eram feitas escravas por dívidas ou guerra. Uma proporção significativa da população urbana da Grécia antiga era formada por escravos, quase todos brancos. Roma também incorporava novos escravos a seu império por onde avançava, brancos ou negros do norte da África. Romanos brancos que caíssem reféns em guerras com povos africanos também eram escravizados.

Os próprios negros, no Brasil, quando conseguiam sua libertação, tentavam comprar ou capturar outros negros como escravos. Zumbi, herói do movimento negro, foi tanto escravo como senhor de escravo — muitos outros também. Como decidir de que lado da dívida histórica estão seus atuais descendentes?

Uma visão mais abrangente e menos maniqueísta da história nos mostra, portanto, que a escravidão foi prática recorrente por muito da existência humana. Não tenho dados para embasar essa afirmação (nem seria possível tê-los), mas se formos levar a sério esse argumento de beneficiamento material por escravidão e traçar a árvore genealógica de cada um de nós até o começo dos tempos, tenho certeza que todos nós temos ascendentes que já foram escravos, e todos nós temos também ascendentes que já foram senhores de escravos. Todos nós, brancos e negros, já enriquecemos injustamente, e injustamente enriquecemos outros. O que nos diferencia, por esse critério, é a proporção entre cada um dos dois — igualmente impossível de se determinar para cada indivíduo

Por fim, nem todos os brancos que hoje vivem no Brasil são descendentes de senhores de escravos do Império. Muitos imigrantes chegaram no século passado e não se beneficiaram em nada com o trabalho escravo dos negros de séculos anteriores. Mesmo assim, na visão do movimento ativista negro, seus descendentes têm uma dívida histórica com os negros.

Isso para não falar de toda a mistura entre raças e entre correntes migratórias que é o nosso povo brasileiro. É fácil perceber que é impraticável desenhar políticas públicas verdadeiramente preocupadas em corrigir qualquer tipo de injustiça que a escravidão tenha causado. A história da humanidade é recheada de atrocidades de todo tipo, condenáveis por qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade — e, muito mais importante, com a visão de mundo liberal que temos hoje.

Não há como saber quem é mais vítima e quem é mais agressor, mesmo que se escolha enxergar pela ótica coletivista de responsabilidades. Reconhecer que essas atrocidades aconteceram, mas que não há nada que possa ser feito para compensar suas reais vítimas é o primeiro passo para evoluirmos rumo a uma sociedade próspera para todos, pacífica e com menos rancor. Em muitos lugares do mundo, longe das universidades públicas brasileiras, nada ou muito pouco se evoluiu nesse sentido. Não façamos o mesmo.

(1)Exceto, obviamente, nos casos em que duas ou mais pessoas estão voluntariamente associadas, como um casamento de comunhão de bens, sócios de uma empresa, etc.

Leia também: Dia da Consciência Negra: a culpa que você não tem.

(*)Felipe Lungov é formado em Economia pela FEA-USP e possui especialização em Estatística pela FIA-USP.


O patrulhamento ideológico não perdoa nem mesmo os negros não totalmente Engajados. Glória Maria não é assim uma Isentona total, já que concorda com a "comemoração" do dia da Consciência Negra. 


Glória Maria rebate críticas à publicação sobre a Dia da Consciência Negra.

por Correio Braziliense de 19/11/2017
A jornalista Glória Maria resolveu se pronunciar sobre a polêmica envolvendo uma publicação em seu perfil oficial no Instagram. Durante quatro dias, a apresentadora virou alvo de críticas após expressar sua opinião contrária ao Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, e decidiu rebater os usuários. "Apagar este post???? Nunca!!!! Quem não concorda com ele ok! Acho triste mas entendam", escreveu.

Glória Maria estava falando sobre um post de 15 de novembro, em que publicou uma imagem do ator Morgan Freeman ao lado da frase: "O dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela ou Branca e nos preocuparmos com Consciência Humana, o racismo desaparece."

“Pra todos que não concordam com este pensamento do Morgan Freeman: Não concordar é um direito de vocês! Mas pretender que todos pensem igual é no mínimo prepotente! Eu concordo totalmente com ele! Pra começar ele não é brasileiro e não está citando o dia da Consciência Negra. Uma conquista nossa! Está falando de algo muito maior. Humanidade! Eu e ele também nascemos negros e pobres e conquistamos nosso espaço com muita luta é trabalho! Não somos privilegiados. Somos pessoas que nunca aceitaram o lugar reservado pra nós num mundo branco! Algum de vocês conhece a minha história e a dele? Se contentam em tirar conclusões e emitir opiniões equivocadas em redes sociais! Nós estudamos, lutamos, resistimos e combatemos todo tipo de discriminação! O preconceito racial é marca nas nossas vidas! Mas não tenho que mudar minhas ideias por imposição de quem quer que seja! Apagar este post???? Nunca!!!! Quem não concorda com ele ok! Acho triste mas entendam. As cabeças e os sentimentos graças a Deus não são iguais! Como lutar contra a desigualdade se não aceitamos as diferenças? Queridos vivam suas vidas e nos deixe viver a nossa! Temos que tentar sempre encontrar nosso próprio caminho! Sem criticar e condenar o dos outros! Cada um precisa combater o racismo da maneira que achar melhor! Lembrando sempre do direito e da opinião do outro!sou negra e me orgulho . Mas não sigo cartilhas . Minhas dores raciais conheci e combati sozinha! Sem rede social para exibir minhas frustrações! Tenho direito e dever de colocar o que penso num espaço que é meu! Não imponho e nao aceito que me digam como devo viver ou pensar! ????”

Dia da Consciência Negra: A culpa que você não tem






A escravidão na África incrível e verdadeiramente começou lá mesmo, entre os próprios africanos, as tribos guerreavam entre si, e as populações derrotadas nestas guerras, serviam como recompensa; assim como sempre aconteceu com outros povos.
Os derrotados viravam escravos, para trabalharem ali mesmo ou para serem vendidos para outras regiões.

Os reinos africanos do Segu e de Dahomé, a povo Ashanti e os Iorubas foram nações que tinham como principal atividade a caça de escravos.Promoviam rápidos ataques nos territórios vizinhos, onde aprisionavam populações isoladas.

Principalmente na África Subsariana essa atividade praticada por séculos destruía e desorganizava a produção agrícola e cultural de comunidades inteiras, fora as perdas de vidas nos combates - esta é uma das causas primordiais do atraso econômico africano.

África Subsariana

Os zulus e os bantos, que eram as nações negras em maior número quando da chegada dos europeus na África, ainda viviam como nos primórdios da humanidade.

Eram diversos os caminhos que levavam um africano a se tornar escravo.
Uma enorme quantidade de cativos vendidos resultavam do seqüestro de crianças e jovens por africanos.
Os próprios pais vendiam os filhos em troca de alimentos em momentos de dificuldades.

A justiça africana foi responsável pelo envio de milhares de africanos para o cativeiro.Diversos crimes eram punidos com a perda da liberdade e com a venda do culpado:
  • Um assassino era entregue aos parentes do morto para ser vendido.
  • O adultero passava a ser propriedade do marido traído.
  • Acusados de feitiçaria, roubo, devedores inadimplentes.
  • Outros delitos faziam com que os culpados se tornassem escravos.

A escravidão na África já existia muito antes dos europeus chegarem lá e era praticada pelos próprios reinos negros e pelos árabes e otomanos que dominavam a África por séculos antes dos europeus chegarem.

O norte da África foi a terra de corsários que faziam escravos principalmente na Península Ibérica, atacavam cidades de Portugal e faziam prisioneiros brancos que vendiam como escravos em portos do norte da África.
Antes da formação de Portugal existem registros de que a escravidão de portugueses era praticada pelos visigodos e durante o Al-Andaluz existia a escravidão de cristãos praticadas por muçulmanos.

Os portugueses ao chegarem no litoral africano encontraram um desenvolvido mercado de escravos negros praticado pelos próprios negros.
Os negros africanos eram vendidos pelos seus sobas - chefes de tribos africanas - aos europeus.
Era só ter dinheiro (ou mercadorias de troca) para comprar que os sobas vendiam os negros como escravos.
O primeiro lote de escravos africanos comprados por Portugal foi em 1441 na costa da Mauritânia atual.

Ao chegarem na Guiné os portugueses também encontraram ali um mercado de escravos negros desenvolvido.
  • Os europeus nunca precisaram entrar África a dentro para caçar escravos, os próprios africanos negros os vendiam nos portos da África.
  • É uma mentira suja e sem nexo dizer que a escravidão negra foi racista.
Jamais foi, uma vez que quem dava origem a condição de escravo eram os próprios negros africanos. Eram irmãos escravizando irmãos.
A maior parte da escravidão negra foi como todas as outras, povos derrotados em guerras eram feitos escravos - no próprio território africano - o que INVALIDA o racismo como causa da escravidão negra, uma vez que os negros eram caçados e vendidos como escravos pelos próprios negros africanos.

Os negros africanos também são culpados pela escravidão negra, eram eles que capturavam outros negros para serem vendidos.
Se isso não tivesse existido teria sido muito difícil para Portugal conseguir tantos escravos negros.


A sua dívida pelo escravismo.
Quanto a “culpa”, quanto a “dívida” que supostamente a sociedade brasileira tem para com os negros.Esta é mais uma imundice criada pelo marxismo cultural.
As pessoas em geral não tem culpa alguma pelos crimes cometidos por outros humanos no passado.
A maioria da população do Estado de São Paulo é de origem italiana, alemã, japonesa, polonesa, brancos europeus que vieram para o Brasil para trabalhar no lugar dos escravos por volta de 1890-1910.
Tais imigrantes que vieram para o Brasil (começaram a chegar a partir de 1890) jamais tiveram escravos, vieram para o Brasil pobres, muitos ficaram bem de vida, mas isto, foi com trabalho árduo deles próprios e não de escravos.
O progresso e a riqueza que existe no Estado de São Paulo atual, para a sua população, aconteceu em função dos imigrantes europeus, e não devido ao trabalho escravo que existiu por 400 anos sem nunca tirar a população do estado da pobreza.

Desta forma a sociedade paulista atual não tem nenhuma "culpa" ou "dívida" moral, o povo atual do Estado de São Paulo é em sua maioria descendentes de imigrantes que vieram para cá trabalhar, trabalharam muito, estudaram, e ficaram bem de vida apenas com trabalho próprio.E isso se estende para outros estados.

O marxismo criminoso na sua farsa como “marxismo cultural” politicamente correto é que criou essa mentira de “culpa” da sociedade para criar artificialmente a "luta de classes" marxista que nunca existiu.

A sociedade atual não tem culpa alguma.
As pessoas não podem pagar por crimes que não cometeram.
Um neto não pode ser condenado por um crime que seu avô cometeu no passado !
Se as escolas públicas do Brasil são ruins, a solução não é criar cotas para negros;isso é institucionalizar a incompetência do governo brasileiro.
A solução é o governo brasileiro ter competência e criar condições para que existam boas escolas públicas, ele é obrigado a fazer isso.
Devem existir boas escolas públicas para todos e não cotas.

Todos devem ter os mesmos direitos e os mesmo deveres não importa a cor da pele, e isso é obrigação do governo garantir e fornecer.
Criar cotas é criar um preconceito.
E é isso que o marxismo quer, criar preconceitos, criar de forma artificial a suja “luta de classes” marxista.

Leia também: O mito da divida histórica entre brancos e negros

Mansa Mussa (1312-1332): negro e muçulmano, quando chegou ao Cairo em peregrinação a Meca em 1324, sua procissão incluía 60.000 homens, 12.000 escravos entre Mansa musa escolheu quinhentos escravos também negros, cada um com uma bola de ouro na mão sendo o total incluía  60.000  homens, e 12.000 escravos.


Fonte: cordaescravidao.blogspot.com.br em: Escravidão sempre existiu até o surgimento da democracia liberal.


domingo, novembro 19, 2017

A ideologia de gênero, a (anti) democracia e o totalitarismo





por Sergio de Mello(*)




Olhando bem de longe, mas muito de longe mesmo, até dá para entender o paraíso terrestre que toda ideologia glorifica e todo o aparato da intelligentsia que a orquestra: um lindo arquétipo grupal igualitário, que busca a alma humana comum e a felicidade. De perto, com a lupa da sabedoria da história e dos valores humanos, no entanto, ela não significa nada além de um projeto de igualdade ou supremacia de grupo impositivo, comportamental e antidemocrático.

Falando mais precisamente sobre ideologia de gênero, que é fazer acreditar (isso mesmo, acreditar, sendo questão de fé e não ciência!) que ninguém nasce com sexo definido, esse totalitarismo chegou ao Estado por meio dos livros didáticos em escolas infantis, com base nos planos nacional, estaduais e municipais de educação, está nas portas dos banheiros, nas salas de aula, nos teatros, nas fichas de cadastro de alunos (“filiação 1”, filiação 2”, em vez de pai e mãe). Enfim, não há aceitação pela maioria e, ainda assim, a mão amiga emilitare do Estado determina que se aceite de uma forma geral e indiscriminada essa, por assim dizer, ideologia ou crença de indefinição sexual biológica.

Como diz o ditado, “cada um é cada um”, faz da sua vida o que quiser. Porém, quando a visão de cada um chega ao Estado aí já é o momento de pensar melhor, refletir e ficar com um pulga atrás da orelha mesmo. Ou melhor, é hora de repudiar quando se quer fazer dos direitos humanos e individuais uma tábula rasa, como se ninguém tivesse mais vontade própria e não soubesse o que é bom para si mesmo. Refiro-me, especificamente, às imposições escolares, com a intenção de transmitir aos filhos dos outros aquilo que acham que é o melhor para se viver. Faço referência aos professores que no dia-a-dia passam para alunos inocentes a ideologia de que eles não nasceram meninos ou meninas. Essa aparente demonstração de uma tal “social democracia” nada tem de democrático, já que defende a posição de alguns enquanto oprime e ignora uma grande maioria. Deve-se defender todos e não apenas alguns.

Não há nada de errado em procurar erros e acertos dentro de uma cultura que se diz preconceituosa e desigual. Não há nada de incerto em investigar as mazelas sociais. O erro está em querer impor de cima para baixo normas de comportamentos e de visões de vida comum e totalitária. E não estou falando aqui em não deixar um gay ser gay, uma lésbica ser lésbica, absolutamente não. Como se diz, cada um faz da sua vida o que bem entender. Digo que o sentimento de proteção extrapola nível aceitável e chega ao legislativo, impondo normas comportamentais a todos. E, pior ainda, baseadas numa visão ideológica das coisas humanas, situação que se deve, acima de tudo, evitar para se poder impedir, posteriormente, um mal maior (cerceamento do pluralismo e das liberdades públicas).

Como bem deixou escrito o professor Olavo de Carvalho, no Mídia Sem Máscara, em artigo veiculado há dois dias, “Na esquerda brasileira já não existe, desde há muito tempo, pensamento individual. Tudo ali se decide em grupos, reuniões, debates internos em redes que formam o discurso ideológico destinado a criar e manter a hegemonia, o controle do movimento sobre o curso da vida social e política.”.

Não precisa ser cristão, religioso, conservador ou “de direita”, para se notar que tal ideologia de gênero não passa, de fato, de uma ideologia e, como tal, isenta de qualquer comprovação científica mais apurada de uma ordem de coisas certas e valorosas para o gênero humano. Quem entende de forma diversa para preservar o que há de mais sagrado para o gênero humano – a própria liberdade que a esquerda tanto zela para ela (não para os outros) – é tido como o fanático, o alienado, o insensível, o de “extrema direita”.

Será que estamos caminhando mesmo num futuro promissor e rumo à evolução e ao progresso, como querem fazer crer os entusiastas de ideologias? Será que podemos adotar a filosofia hegeliana de que a compreensão da humanidade e a sabedoria virão somente “ao anoitecer”, no decorrer do curso de história, num porvir? Será que o caminhar da humanidade é linear e não cíclico? Aliás, pensando em Hegel e nesta semana de nossa república, há que se duvidar muito de seus prodígios, já que ele considerou um “glorioso amanhecer” os acontecimentos anti-monárquicos quando da implantação da república no momento da Revolução Francesa.

Ideologia de Gênero derrotada
no Peru.



Ideologia de Gênero: 
Nada mais do que o empobrecimento
intelectual do ser humano





Fonte: institutoliberal.org.br


(*)Sergio de Mello é Defensor Público do Estado de Santa Catarina.

Leia mais sobre o assunto:



-Criadora da “ideologia de gênero” virá ao Brasil

sábado, novembro 18, 2017

Embaixador de Cuba não quer que se fale mal de Guevara na Colômbia





por Eduardo Mackenzie(*)

A melhor foto de Ernesto Che Guevara



Um tal José Luis Ponce Caraballo não gostou de um excelente artigo do escritor colombiano Ariel Peña (leia Aqui) que, no 50º aniversário da morte de Che Guevara na Bolívia, desmonta a falsa imagem que Cuba fabricou e alimentou durante décadas, por razões ideológicas, do terrível aventureiro argentino-cubano.

Invocando a condição de “jornalista”, Ponce Caraballo conseguiu que lhe publicassem em Las 2 Orillas uma réplica agressiva contra Ariel Peña. Ocorre que José Luis Ponce Caraballo é nada menos que o embaixador de Cuba na Colômbia.

Ao ocultar sua qualidade de diplomata estrangeiro e ao dizer que era um simples “jornalista”, o senhor Ponce valeu-se de uma mentira para conseguir seu objetivo: declarar que Ernesto Guevara era um modelo de virtudes, um “exemplo” para muitos e que, ao contrário, Ariel Peña não tem direito de criticar um “líder de Cuba” sem haver “estudado mais a história” desse país.

O embaixador do castrismo em Bogotá acusou também Las 2 Orillas de cumplicidade por ter publicado a nota de Peña. Essa revista eletrônica, como quase toda a imprensa colombiana, excetuando as declaradamente de esquerda, pratica o pluralismo de opinião e publica comentários que não necessariamente coincidem com as idéias de sua direção.

Fiel à doutrina comunista de impor a censura de imprensa em todas as partes, e sem aprender nada da liberdade de imprensa que defende o país que o acolhe como embaixador, o agente castrista escreveu: “Não creio que um meio de comunicação publique um artigo sem compartilhar das idéias que nele se refletem”.

Vê-se que os serviços de Ponce Caraballo seguem a pista de todo aquele que critica a política cubana. Ele reprova Ariel Peña por ter escrito esse e outros artigos sobre Cuba “também marcadamente grosseiros”. Eu li quase tudo o que Ariel Peña escreve a respeito e não vejo neles grosseria alguma. O problema é que hoje é praticamente impossível, se não se é um escritor a soldo, escrever elogios sobre o Che e sobre a ditadura cubana.

O diplomata teve que recorrer ao exaltado escritor marxista José Saramago (1922-2010) para encontrar frases de elogio a Guevara, cuja imagem de herói político e moral declinou nos cinco continentes ante as revelações irrebatíveis que seus biógrafos mais independentes fizeram nos últimos anos. Saramago não era um modelo de probidade em matéria histórica: ele considerava que a situação atual dos palestinos é como a dos judeus no campo de morte de Auschwitz.

Ponce foi o mesmo que propôs em março passado que os “médicos” das FARC pudessem ir “graduar-se em Cuba” não se sabe ainda em quais matérias.

Em vez de pedir a outros que se inclinem ante o fetiche artificial criado pelos propagandistas de Havana, o embaixador deveria ler os testemunhos dos que conheceram o Che de perto e examinar os próprios escritos dele, suas cartas, discursos e diários, para descobrir lá o verdadeiro Ernesto Guevara, sua crueldade e insensibilidade diárias, sua desconfiança pelos intelectuais, poetas e escritores, aos quais chegava a considerar como inimigos potenciais, e que expulsava da ilha quando podia, como ocorreu a Allen Ginsberg, poeta beatnik norte-americano, judeu, homossexual e budista, em 1965. Poderá descobrir a obsessão do Che pela guerra e pelos fuzilamentos, e sua aterradora idéia de que o ódio é o motor da ação revolucionária.

Rebelde, o Che? Sem dúvida, mas também verdugo e, no final, vítima de seu próprio radicalismo e dos interesses estratégicos da URSS e de seus auxiliares cubanos.

O destemperado discurso do embaixador Ponce em defesa do fanático stalinista que era Ernesto Guevara, cognome “o carniceiro de La Cabaña”, foi publicada em 11 de outubro. Esperamos que Las 2 Orillas não feche agora suas páginas a Ariel Peña e que o direito dos editorialistas, comentaristas e jornalistas da Colômbia a criticar a ditadura cubana e seus personagens, e todos os governos em geral, continue sendo uma realidade, embora isso aborreça tanto o senhor José Luis Ponce Caraballo.






(*) Eduardo Mackenzie é jornalista e escritor
No twitter - @eduardomackenz1 Fonte: heitordepaola.com
Tradução: Graça Salgueiro

sexta-feira, novembro 17, 2017

Errando o alvo na mosca





por Beto Moraes(*).




No início dos anos 1990, minha irmã, então roteirista da Fundação Roberto Marinho, me convidou para ser seu assistente na lida sub-literária de escrever roteiros de teleducação e empresariais. Iniciou-se assim minha carreira na seara das letras plebeias, que durou mais de 20 anos. Graças a minha irmã, entrei na panela, e segui adiante por conta própria: conheci muita gente do meio artístico, ‘bacanas’ aos montes, e até mesmo tentei praticar a tal da ‘arte’. Cheguei a criar e escrever um seriado juvenil para a TV Cultura (Galera) e participei da roteirização de um longa de pegada popular (O Menino da Porteira), que foi visto nos cinemas por mais de um milhão de pessoas (Lei Rouanet, eu confesso, também pequei). O fracasso, no entanto, nunca me subiu à cabeça e minha carreira não foi adiante pelas minhas próprias deficiências e pela minha falta de tino sociopatológico (Thank you, Lord!). O ambiente é tóxico.

Dito isto, proponho, então, uma questão de natureza aritmética das mais simples, prosaica e nada artística: quantos artistas brasileiros e vacas sagradas da cultura brasileira (música, artes dramáticas, cinema) têm uma carreira internacional? Quantos gozam lá fora do prestígio e da intocabilidade crítica de que gozam (ops!) aqui? Resposta: nenhum. Zero, zero, zero. Por quê? Também é fácil responder. Porque lá fora não é essa terra de compadres que é a cultura nacional, com trocas de rapapés e tapinhas mútuos nas costas. Essa gente não sobreviveria em uma cultura competitiva, em que o mérito e a qualificação fossem atributos indispensáveis. As atrizes famosas daqui seriam eternas garçonetes lá. Nenhum artista do Olimpo artístico brasileiro, a Globo, conseguiu se instalar de fato na selva mortalmente perigosa que é Hollywood: The Industry. Todos que tentam, quebram a cara. Não me venham dizer que Rodrigo Santoro é um ator hollywoodiano de prestígio. Não é. Sua situação, longe de espetacular, é o máximo que os atores e atrizes conseguem imaginar de sucesso interncaional, o que só mostra o horizonte da mediocridade nacional. A Globo é o limite dessa gente. Por quê? Porque são muito ruins. Só servem para fazer telenovelas, que é um lixo. É o que servem, conscientes da má qualidade do produto, para o povo, que os sustenta com sua audiência, e ao qual devotam o mais supremo desprezo (retrógrados, religiosos fanáticos etc). Eu conheci atores e atrizes que não se envergonhavam de dizer que não viam o trabalho que haviam feito quando este era exibido na televisão. Não viam as novelas que faziam, nem para ver o resultado. A ambição do artista brasileiro não é fazer arte e sim ser famoso e fazer parte de uma turma, da panela do Projac. Uma amiga atriz me contou, que ao fazer um seriado televisivo global, começou a ser tratada por outros atores/atrizes globais, que desconhecia totalmente, como uma antiga amiga. Ela se sentiu mal, achou asquerosamente falso. Não sei como anda agora. Vai ver que se acostumou. Essa panela é nefasta, para eles mesmos e para o país. Todo mundo finge, principalmente eles próprios, que não se trata de um bando de medíocres. E são, todos. As exceções confirmariam a regra, se existissem. Não existem.

A vaca sagrada do teatro brasileiro, Fernanda Montenegro, Dona Arlete, quando indicada para a categoria de melhor atriz, por sua atuação em Central do Brasil (Hollywood, cínico, se dá ao luxo de fazer essas concessões paternalistas aos países do terceiro mundo, que logo se abraça à glória efêmera, como se não odiasse até ontem mesmo o imperialismo americano, salivante de raiva e impotência), pois então, dona Arlete protagonizou um clássico da vergonha alheia ao se lançar à aventura de falar em inglês em uma entrevista no então mais famoso talkshow da TV americana, capitaneado por David Letterman (modelo de Jô Soares). A coisa foi de um constrangimento atroz: “The rivers and mountains are on the table”. A torcida alienista nacional urrou quando ela conseguiu dizer: “I’m the old girl from Ipanema!”. Vejam só, que linha shakespeariana. A muié não fala lé-com-cré em inglês. Parecia uma débil mental (que ela obviamente não é).



Mas a chuva ufanista nacional inundou qualquer possibilidade de visão da realidade do que tinha de fato acontecido: foi constrangedor. Esta é a verdade: os atores e atrizes nacionais são constrangedores. Cadê os grandes papéis da Dona Arlete no cinema internacional, depois de ter ficado sob os holofotes dos abutres midiáticos mundiais, pelos 15 minutos de fama de praxe concedidos aos melhores artistas de todos os tempos de países do terceiro mundo? Não adianta procurar. Zero. Nada.

Quando fazem sucesso, como o Wagner Moura, começam a se achar demiurgos iluminados e pessoas esclarecidas do bem, e só constrangem ainda mais pela burrice decorrente do estado de torpor mental ideológico (o cara ultrapassa todos os limites da estultice com aquela pose de sabichão imbecil). Nisso, convenhamos, não ficam atrás de Matt Damon, Di Caprio, Meryl Streep e outras sumidades do pensamento humano ocidental.

A classe artística brasileira é uma das certezas nacionais. É garantido: sempre erram o alvo na mosca. (Gracias a Millôr, pela boutade, este sim um artista universal que só não foi mundialmente reconhecido porque escreve em uma linguagem quase secreta chamada português).


Fonte: Midiasemmascara.org
(*)Beto Moraes, 57, é roteirista e tradutor.

quinta-feira, novembro 16, 2017

Bono, impostos e a insustentável incoerência progressista



por Rafael Rosset(*),



Bono Vox é o típico esquerdista hipócrita, que prega contra a desigualdade social, mas perpetua a pobreza através da defesa dos impostos.



Bono Vox é aquele cara que é citado em livros-texto de psicologia quando o autor quer definir o conceito de “Complexo de Messias”. Em 2015, numa palestra no Clinton Global Initiative (opa), ele disse: “Os países da África são extremamente ricos em recursos, mas por que são pobres? Essas empresas extrativistas bilionárias não estão devolvendo a riqueza para o povo. (…) Você não pode dar esmolas para as pessoas com uma mão e apertar a garganta delas com a outra”. Ele estava se referindo a empresas como a Exxon Mobil, suspeitas de empregar esquemas (nem sempre ilegais, diga-se de passagem) para pagar menos impostos nos países em que operam.


E de esmola ele entende. Dos R$ 25 milhões arrecadados em 2010 por sua organização para fazer o bem sem olhar a quem, a One, apenas 1,2% foram efetivamente repassados a caridade. O resto foi para sustentar a folha de pagamento de mais de 120 ativistas e militantes em tempo integral, que cobram caro para percorrer o mundo espalhando o evangelho segundo o qual você deve dar mais dinheiro a eles, para que eles possam continuar correndo o mundo espalhando sua "pregação" e… não pera.


Bono também entende de planejamento tributário. Até 2006 o U2, que é uma empresa como qualquer outra, se valia de uma lei irlandesa da década de 60 para pagar menos impostos. Quando o U2 deixou de poder se beneficiar dessa lei, a banda transferiu seu domicílio fiscal para a Holanda, para continuar pagando menos impostos. O próprio Bono, que tem uma fortuna estimada em US$ 600 milhões, usou uma empresa com sede em Malta para pagar por uma participação em um centro comercial de uma pequena cidade da Lituânia, tudo para driblar a cobrança de impostos.



O grupo irlandês foi alvo de duras críticas após transferir sua residência fiscal da Irlanda para a Holanda em 2006, com o aparente objetivo de economizar impostos. Há quatro anos, num show da banda no festival de Glastonbury, ativistas burlaram a segurança e exibiram um cartaz com os dizeres: “U pay tax 2?” (“Você paga impostos também?”, em tradução livre).

Assim, quando Bono critica o arranjo da Exxon para pagar menos impostos na África, ele sabe do que fala, porque ele faz exatamente o mesmo na Irlanda (e na Holanda, e em Malta, e na Lituânia). Ele costuma defender publicamente, com unhas e dentes, a lei irlandesa que prevê baixos impostos para corporações como o U2, mas acha ruim que uma petrolífera pague baixos impostos em Angola. A diferença é que, depois que ele morrer, vamos ter que esperar uns 30 ou 40 milhões de anos até ele virar petróleo e tornar-se algo efetivamente útil para a sociedade. Até porque, por enquanto, os únicos empregos que ele está gerando são os de advogados tributários e contadores especializados.

No Congresso, lar de gente que ganha R$ 30.000,00 por mês por um trabalho de 3 dias por semana, já tramita projeto de lei estipulando que qualquer pessoa com patrimônio superior a R$ 2 milhões deverá pagar imposto variando de 1% a 5% do total. Falam isso como se tivessem descoberto uma nova Laurion, a mina de prata que salvou a pele dos atenienses há 2500 anos (uma analogia pertinente, considerando que o estado brasileiro atua como extrativista da sociedade).

Notem que toda pessoa que defende maior taxação como medida de “justiça tributaria” defende mais impostos PARA OS OUTROS. Se você acha que ganha muito (e no Brasil, se você ganha mais de R$ 1.600,00 por mês já faz parte dos 10% mais ricos — se seu salario for acima de R$ 5.500,00 então, você ja é a elite do 1%), nada impede que você preencha um DARF com qualquer código e pague na casa lotérica mais próxima. Eu posso assegurar que o governo não vai devolver seu dinheiro se você não pedir. Eu tenho certeza que você, que acredita no Estado Robin Hood, não pedira, uma vez que acredita que esse seu dinheiro estará sendo redistribuído para quem tem menos que você.

Mas essa crença infantil de que o estado pode combater a desigualdade cobrando mais impostos, na verdade, não é historicamente a pauta majoritária das esquerdas. A grande bandeira socialista, o instrumento usado para semear o ódio de classes sempre foi a POBREZA. Capitalistas exploradores ricos de um lado, proletários explorados pobres de outro, essa sempre foi a narrativa standard. O que foi mais um furo n’água da análise marxista.

Vivendo no século XIX, Marx só poderia escrever acerca daquilo que via, e o que ele via era a luta de classes num capitalismo emergente. Nobreza (estado), aristocracia (capitalistas detentores dos meios de produção) e clero, juntos explorando o povo (proletariado). “Assim como pensava Marx, dada a realidade social de sua época, que a história consistia essencialmente em uma imensa e única metanarrativa de lutas de classes (…)” (Shlomo Sand).


Assim, Marx só poderia prescrever a supressão da nobreza (estado), o materialismo histórico (a religião é o ópio do povo) e a tomada dos meios de produção numa “ditadura do proletariado”. O que ele não poderia antever era que, com o desenvolvimento posterior do capitalismo nas economias centrais, ocorresse um fenômeno de massa denominado “classe média”, inserido no contexto das democracias liberais. Um enorme contingente populacional que, sem ter acesso aos meios de produção, alcançasse inimaginável padrão de vida pelo acesso ao consumo de bens e serviços; pessoas que, sem acesso direto ao poder político, tivessem força suficiente para se organizar politicamente e impor sua vontade através de representantes democraticamente eleitos; e por fim, pessoas que exigissem liberdade de consciência, para crer ou descrer daquilo que bem entendessem, não só em matéria de religião, mas principalmente em política.

Marilena Chauí, assim, está certa ao abominar e odiar a classe média e em denunciar a democracia burguesa, porque é a classe média, mais do que qualquer outra coisa, que torna desnecessária e obsoleta uma revolução socialista. Essa classe média que, sem ser nobre nem aristocrática, tampouco é proletária e não se vê oprimida.

Fonte: sensoincomum.org

Rafael Rosset @rafarosset Paulistano, 35 anos, advogado mas legal, tem um cachorro vira latas chamado Smirnoff que curte Iggy Pop e que sabe que rock nacional não é rock.



quarta-feira, novembro 15, 2017

A proclamação da República – O fato e o golpe da República



por Everthon Garcia(*).




Em 1889, o Império do Brasil vivia sua era de ouro desde 1870, e o Imperador Dom Pedro II estava no auge de sua popularidade.

Em 1870, políticos republicanos lançaram o Manifesto Republicano e fundaram o Partido Republicano Paulista. Desde então, os republicanos sempre foram um verdadeira minoria, ocupando pouco cargos públicos. O Imperador garantia a liberdade de expressão e liberdade de imprensa absoluta, assim os republicanos estavam sempre fazendo ataques ao Império e ao Imperador não só governamentalmente mas também pessoalmente.

Desde a Guerra do Paraguai, muitos oficiais do Exército Imperial adquiriram um perfil de caráter positivista, tendente ao republicanismo, e com uma maior necessidade de investimentos por parte do Governo Imperial no Exército, além de um certo ciúme da relação entre a monarquia com a Armada Imperial (Marinha), esses oficias do exército passaram sonhar com uma república ditatorial onde eles seriam os líderes, e desde então começaram a influenciar os jovens nas escolas militares por todo o Brasil com positivismo e republicanismo.

Outro agravante foi a descrença, motivada por preconceito, visto que o Brasil era uma sociedade muito conservadora, na capacidade de uma mulher, mais precisamente da Princesa Isabel, de governar, apesar dela ter se mostrado muito competente tendo governo o Brasil por 3 vezes como Regente na ausência de seu pai. Junto com isso, o povo temia que o marido de Isabel, o Conde d’Eu, fosse quem realmente governasse por trás da sombra de Isabel.

Desde 1850, a escravidão vinha sendo abolida gradativamente para não afetar gravemente a economia e não gerar uma guerra civil, como nos EUA. Enfim, em 1888, a Princesa Isabel, então Regente do Império na ausência de seu pai, aboliu a escravidão definitivamente no Brasil com a Lei Áurea, porém essa lei não beneficiava ou concedia indenização aos senhores de terras que perderam seus escravos com ela.

Revoltados por não serem indenizados, os senhores de terra passaram a apoiar um novo governo que os indenizasse, assim, se voltaram aos políticos republicanos e se aliaram aos militares positivistas, passando então a apoiar a república.

Em novembro de 1889, os políticos republicanos estavam insatisfeitos com o ministério do Visconde de Ouro Preto e pretendiam derruba-lo com apoio da elite agrária e dos militares positivistas. O Marechal de Campo Manoel Deodoro da Fonseca, monarquista convicto e amigo do Imperador, havia sido chamado para este golpe e mais além, para se fosse o caso proclamar a república derrubando de uma vez por todas a monarquia. Deodoro recusou-se a derrubar a monarquia, o próprio já havia dito que “república no Brasil e desgraça nacional são a mesma coisa” e que “a monarquia é o único sustentáculo do Brasil”, apesar de se inclinar a por um fim na monarquia somente quando Dom Pedro II morresse. Mas enfim, o Marechal Deodoro não aceitou nenhuma proposta de golpe nem contra a monarquia, nem contra o ministério de Ouro Preto.

Foi então que no dia 14 de novembro os republicanos lançaram uma mentira que chegou rapidamente aos ouvidos de Deodoro propositalmente. A mentira dizia que o Visconde de Ouro Preto havia expedido uma ordem de prisão contra Deodoro e contra os lideres republicanos. Essa falsa notícia foi o argumento decisivo que convenceu Deodoro finalmente a levantar-se contra o Governo Imperial. Pela manhã do dia 15 de novembro, o Marechal reuniu algumas tropas no Campo de Santana. Penetrando no Quartel-General do Exército, Deodoro decretou a demissão do Ministério Ouro Preto – providência de pouca valia, visto que os próprios ministros, cientes dos últimos acontecimentos, já haviam telegrafado ao Imperador, que estava em Petrópolis – RJ, pedindo demissão. Ninguém falava em proclamar a República, tratava-se apenas de trocar o Ministério, e o próprio Deodoro, para a tropa formada diante do Quartel-General, ainda gritou um “Viva Sua Majestade, o Imperador!”

Enquanto isso, o Imperador Dom Pedro II retornou ao Rio de Janeiro em vista da situação, reuniu o Conselho de Estado no Paço Imperial e, depois de ouvi-lo, decidiu aceitar a demissão pedida pelo visconde de Ouro Preto e organizar novo Ministério.

Os republicanos precisavam agir rápido, para aproveitar os acontecimentos e convencer Deodoro a romper de vez os laços com a monarquia. Contaram mais uma mentira: Quintino Bocaiuva e o Barão de Jaceguai mandaram um mensageiro a Deodoro, para informar-lhe que o novo primeiro-ministro, escolhido pelo Imperador, seria Gaspar Silveira Martins, correligionário liberal do visconde deposto e político gaúcho com quem o Marechal não se dava por conta de terem disputado o amor da mesma mulher na juventude. Deodoro poderia aceitar qualquer coisa, mas não que seu inimigo pessoal de anos fosse nomeado Primeiro-Ministro. Foi então convencido de derrubar o regime.

Pela tarde, reunidos alguns republicanos e vereadores na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, foi lavrada uma ata declarando solenemente proclamada a República no Brasil, que foi levada ao Marechal Deodoro.

À noite do dia 15, o Imperador encarregou o conselheiro José Antônio Saraiva de presidir o novo ministério. O novo Presidente do Conselho de Ministros (do Partido Conservador – o mesmo de Deodoro) dirigiu-se por escrito ao Marechal, comunicando-lhe a decisão do Imperador, ao que respondeu Deodoro que já havia concordado em assinar os primeiros atos que estabeleciam o regime republicano e federativo.

Diante da recusa do Imperador, desiludido quanto ao futuro da monarquia, em reagir militarmente para sufocar o golpe, como instavam a Princesa Isabel, seu marido o Conde D’Eu, seu neto o Príncipe Dom Pedro e o Almirante Marquês de Tamandaré – este apoiado por toda a Armada Imperial, fez a República no Brasil, diante da surpresa generalizada do êxito da quartelada.

O povo não tinha a menor ideia dos eventos ocorridos. Para a população civil, tudo não passava de um desfile militar.

Um homem republicano havia sugerido que se fuzilasse a Família Imperial, mas o Marechal Deodoro não permitiria isso jamais. Ele reconhecia os méritos do Imperador, da Princesa Imperial e da monarquia, e devia toda a sua carreira a isso.

A Família Imperial Brasileira foi embarcada no navio Alagoas para partir para seu exílio na Europa em 17 de novembro de 1889, pela madrugada, para que a população, caso soubesse do que acontecia, não se revoltasse.

O Marechal Deodoro ofereceu a Dom Pedro II uma quantia equivalente a 4,5 toneladas de ouro para viver seu exílio, mas o Imperador recusou a oferta pois vinha do dinheiro público do Tesouro Nacional, e ainda disse: “Eu não posso aceitar. Porque nem Deodoro nem nenhum brasileiro tem o direito de tocar em um vintém sequer do Tesouro Nacional sem a aprovação do parlamento. Com que autoridade estes senhores dispõe do dinheiro público?”

Assim, sem nada, a Família Imperial deixou o Brasil em direção a Portugal, para depois se instalarem na França.

Apesar de já não mais ser Chefe de Estado há dois anos, de um país cuja forma de governo foi alterada, com a morte de Dom Pedro II em 1891 o Governo da República Francesa insistiu à Princesa Isabel para que se desse a Sua Majestade um funeral de Chefe de Estado, com tudo pago, e assim foi feito. 300 mil pessoas compareceram ao cortejo fúnebre do ex-Imperador do Brasil, dentre civis, a políticos franceses, a nobreza europeia, e representantes de diversos países republicanos e monárquicos, mesmo os mais longínquos como Pérsia, Japão e o Império Otomano.

Muitos dos participantes da proclamação da república mostraram-se severamente arrependidos do que fizeram:


“Majestade, me perdoe. Eu não sabia que a república era isto”
-Ruy Barbosa, político republicano


“Não era esta a república com que eu sonhava”
-Benjamin Constant, militar republicano


“Só volto ao senado para pedir perdão a Deus pelo que fiz para que viesse esta república”
-Quintino Bocaiuva, político republicano

“[…] E o sangue que não correu a 15 de novembro, ainda há de correr”
-Deodoro da Fonseca, presidente da república.